domingo, 8 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
despeito
E então ela empacotou e colocou numa mala velha vermelha todas as lembranças. Juntou tudo: os retratos dos dois rostos sorridentes passeando por aquela rua antiga; as passagens; as flores murchas, as pétalas e o cheiro ainda presente; empacotou os beijos ardentes; empacotou os carinhos delicados; e empacotou até os desejos de fazer ele eternamente feliz. Empacotou Tudo como se Tudo nunca tivesse existido, assim era mais fácil enganar a memória. Como se as coisas não passassem de um devaneio, como se ela tivesse apenas acordado de um pesadelo... E então ela olhou pra mala velha vermelha abarrotada de coisas antigas; de umas memórias que estendiam os braços e gritavam "- socorro!". Olhou o Tudo que ainda estava ali, olhou o Tudo que, por mais que ignorasse, era o que fazia o seu coração se remexer e ganhar cor, mesmo ainda depois do que aconteceu.
E então foi quando ela percebeu que o que tinha era despeito. Justo ela... despeito de quem levou um belo pé você sabe onde. E ela decidiu que poderia passar por cima daquilo. Manteve tudo bem empacotado, vez por outra remexendo nos seus pacotes, mas com um novo olhar sobre tudo, sabe, como quem finalmente se acha depois de estar tão perdido. E isso era muito bom.
ps.: esse não é pra ninguém, finalmente!